segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Reúso da água em edificações

 
 


 

Muito se tem discutido sobre as questões que envolvem uma possível escassez de água doce no planeta. No Brasil, que conta com uma das maiores reservas dessa água, são feitas inúmeras campanhas que abordam quase que exclusivamente a postura da economia. No entanto, o gerenciamento das águas ao nível do consumidor pode e deve ser tratado de uma maneira mais abrangente adotando-se uma prática que denominamos normalmente de reuso.
O reúso consiste na utilização da água mais de uma vez, partindo do princípio básico de sempre reutilizar esta água com a qualidade mínima requerida pelos padrões e normas sanitárias.

Quando falamos de gerenciamento de águas nos referimos à maneira como as águas fornecidas pelos concessionários devem ser distribuídas e utilizadas nas residências. Hoje, ela falta de opção, cometemos o grande absurdo de utilizar a água potável que nos é vendida a uma preço considerável, nos vasos sanitários, na lavagem de calçadas, na lavagem de automóveis e na irrigação dos jardins, usos considerados menos nobres e que poderiam perfeitamente estar sendo supridos com uma água com qualidade mas não necessariamente potável.

Aliás, a própria ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), na norma NBR 13969, ressalta a possibilidade do reúso quando afirma que “o esgoto tratado deve ser reutilizado para fins que exigem qualidade de água não potável mas sanitariamente segura”.

Ao concessionário fornecedor de água tratada não se pode impor a obrigatoriedade de se colocar a disposição dos consumidores a água não potável para o uso em lavagens e irrigação. Isto seria um absurdo sob vários aspectos a começar pela necessidade de uma rede pública exclusiva, passando pelo grande ônus da manutenção e culminando com o grande risco da má utilização desta água nos pontos finais de consumo.

A opção para a utilização de água de qualidade não potável que se apresenta viável e que nos parece a mais lógica, é fazer-se a gestão do reúso nas próprias residências, edifícios comerciais e públicos. Hoje, já dispomos de recursos tecnológicos e de equipamentos para que esta prática se realize na maioria dos edifícios brasileiros.

As águas provenientes do esgoto doméstico, também chamadas de águas servidas, podem ser classificadas genericamente em águas cinzas e águas negras. As águas cinzas são aquelas provenientes das lavagens de roupa, chuveiro, ralos e pia de banheiro e são chamados muitas vezes de esgoto secundário. As águas negras são aquelas provenientes do vaso sanitário e das pias de cozinha que contenham gordura e são os componentes do chamado esgoto primário.

O tratamento das diversas águas pode ser feito em separado ou conjuntamente. Os equipamentos disponíveis no mercado para o tratamento de todas as águas servidas variam de tamanho e preço, mas, no geral, se baseiam no processo tradicional proposto pelas normas da ABNT citadas anteriormente e que contemplam os processos de: tanque séptico, reator anaeróbico, reator aeróbico, decantação, lodo ativado, esterilização e filtragem.

Os consumidores devem estar atentos às especificações dos equipamentos, pois todos os processos devem fornecem ao final, uma água com qualidade mínima para o reúso em irrigação e lavagens em geral, mas que atendam às normas exigidas pelos órgãos ambientais e sanitários.

Quando se tem a oportunidade de separação das águas pode-se fazer a opção de se fazer o tratamento somente das águas cinzas. Este tratamento se apresenta como uma opção bem mais econômica, pois o tratamento é simplificado devido a não ocorrência das gorduras e da matéria orgânica. Sistemas para o tratamento das águas cinzas podem ser montados a partir de câmaras de retenção de sabão, reatores aeróbicos e filtros de areia e carvão ativado bem dimensionados para a vazão requerida.

Em se tratando de reúso, alguns destes sistemas de tratamento disponíveis no mercado podem apresentar um payback (retorno do investimento), variando de 4 a 8 anos, dependendo das variantes de consumo e custo local da água. Para o reúso exclusivo das águas cinzas este payback pode chegar a 3 anos o que se configura um excelente incentivo de investimento para quem deseja estar conectado com a tendência global de construir de forma responsável e sustentável.

Arquiteto Mário Hermes Stanziona Viggiano

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Aproveitamento da água da chuva


A água é um patrimônio da terra que, apesar de abundante em termos de volume total, começa a faltar em grandes aglomerados urbanos. Dois terços da superfície da terra são cobertos por água, mas estima-se que somente 0,36% desse volume podem ser considerados próprios para o uso humano.  Dentro de uma visão que não chega a ser alarmista, mas sim, preventiva, devemos começar a fazer o que chamamos de gestão eficiente das águas urbanas. Este princípio envolve a economia através da utilização de equipamentos de baixo consumo, o reuso das águas servidas, a preservação dos mananciais e o aproveitamento das águas da chuva.

A água da chuva, considerada como uma necessidade vital no meio rural se tornou, nas últimas décadas, um grave problema urbano devido às enchentes. A falta de permeabilidade do solo urbano, aliada a ramais pluviais mal dimensionados e ao assoreamento dos rios lindeiros, faz com que as águas de grandes chuvas não consigam escoamento adequado, gerando enchentes que, muitas vezes, chegam a ser catastróficas.

Em face disto, cidades como São Paulo, Rio de janeiro, Guarulhos e Curitiba já aprovaram leis que obrigam os edifícios a possuírem sistemas de captação e armazenagem da chuva. Com estes reservatórios executados é claro que a ação mais lógica é prover meios de se aproveitar esta água no próprio edifício.

Ao nível das residências, as águas pluviais podem ser utilizadas como fonte de água não potável bastando para tanto que se criem as condições de infraestrutura necessária para o perfeito funcionamento do sistema. Considera-se a água não potável aquela que não entrará em contato com o ser humano, seja por ingestão ou pelo contato físico. Assim, o uso não potável abrange a água para o vaso sanitário, lavanderia, lavagens em geral e irrigação.

Para se conceber um sistema de aproveitamento de água da chuva nas residências é necessário que se tenha um sistema de calhas no telhado para fazer a captação. Depois de captada, a água da chuva é direcionada para uma cisterna passando antes por um filtro especial. Após ser armazenada, esta água é bombeada para uma caixa d’água própria localizada no telhado, ao lado da caixa de água potável, sendo então distribuída para os usos previstos. Todos os equipamentos que compõem o sistema já são fabricados no Brasil e podem ser encontrados facilmente em representantes por todas as capitais.

Em se tratando de investimentos, a água da chuva pode vir a ser um excelente negócio. Estudos práticos em sistemas já instalados provam que se pode obter um payback (retorno do investimento) que começa com dois anos, chegando a seis anos. Algumas variáveis são responsáveis por esta diferença de tempo e estão, na maior parte das vezes, ligadas ao potencial climático e ao calendário de chuvas da região. O preço da água cobrado pelo concessionário de água e esgoto, bem como a necessidade de armazenamento são outros fatores cruciais no cálculo do payback.

Mais do que um grande negócio, o aproveitamento da água da chuva passa a ser uma resposta da sociedade a um problema que começa a se tornar crônico na maioria dos centros urbanos.

Arquiteto Mário Hermes Stanziona Viggiano